A depressão é o incômodo que me traz de volta para mim. Observe:
um deprimido pensa sempre no que é incômodo. Está infeliz ou
triste. Está desanimado. Frustrado. Angustiado.
Sempre houve um
incômodo desde que eu me lembre. Somente não me recordo o motivo
exato. Se eu soubesse de verdade, certamente já teria extirpado isso
de minha vida. Sempre houve a sensação de necessidade de consertar
algo. Sempre havia algo para consertar, arrumar.
Não me lembro de
ter sido uma criança que quebrava as coisas. Eu não era uma criança
reativa. Me lembro de ser contida. Mas me lembro do Chokito. A
história do Chokito é a seguinte:
Meu pai tinha um
bar, um botequim simples com bebidas e salgados, destes onde homens
se encontram para beber. O diferencial era que tinha três sinucas. O
estabelecimento era grande. O chão era de cimento queimado. Posso
até sentir o cheiro de giz e do feltro das mesas de sinuca. Eu
gostava de pegar naquelas bolas coloridas e pesadas.Naqueles tempos
minha mãe ajudava meu pai fazendo salgados para colocar na vitrine
do balcão do bar. Me lembro que ela fazia o que chamava de “charuto”
– uma variação de uma iguaria árabe feita com folhas de repolho
e recheio de carne moída com arroz. Ela também fazia pudim de pão.
E eu tinha uma
função no meio desta engrenagem toda: eu tinha que levar as comidas
que minha mãe fazia. Eu deveria ter uns seis anos nesta época. E
como eu era pequena, não podia carregar muita coisa. Então, eu
fazia duas ou três viagens de minha casa até o bar. Era um pouco
distante, para uma criança. Me lembro que eu demorava para chegar.
Minha outra função neste negócio do meu pai era varrer o bar. Eu
varria todo o estabelecimento. Meu pai fiscalizava tudo depois e,
quando eu esquecia algum resíduo para trás, ele me fazia varrer
tudo novamente. Eu nem ligava muito porque meu pagamento era muito
ansiado: eu ganhava um Chokito por dia de trabalho. E talvez por isso
eu tenha também me viciado em doces. Açúcar acalma as emoções,
ainda que de forma muito passageira.
Então eu tinha um
pai, uma mãe e um lugar numa família que tentava levar sua vida. E
tudo parecia normal.
Meu pai alcoólotra
tinha um bar.
Minha mãe
esquizofrênica fazia salgados sozinha.
E eu aos seis anos,
trabalhava.