domingo, 20 de março de 2022

Chokito

 

A depressão é o incômodo que me traz de volta para mim. Observe: um deprimido pensa sempre no que é incômodo. Está infeliz ou triste. Está desanimado. Frustrado. Angustiado.

Sempre houve um incômodo desde que eu me lembre. Somente não me recordo o motivo exato. Se eu soubesse de verdade, certamente já teria extirpado isso de minha vida. Sempre houve a sensação de necessidade de consertar algo. Sempre havia algo para consertar, arrumar.

Não me lembro de ter sido uma criança que quebrava as coisas. Eu não era uma criança reativa. Me lembro de ser contida. Mas me lembro do Chokito. A história do Chokito é a seguinte:

Meu pai tinha um bar, um botequim simples com bebidas e salgados, destes onde homens se encontram para beber. O diferencial era que tinha três sinucas. O estabelecimento era grande. O chão era de cimento queimado. Posso até sentir o cheiro de giz e do feltro das mesas de sinuca. Eu gostava de pegar naquelas bolas coloridas e pesadas.Naqueles tempos minha mãe ajudava meu pai fazendo salgados para colocar na vitrine do balcão do bar. Me lembro que ela fazia o que chamava de “charuto” – uma variação de uma iguaria árabe feita com folhas de repolho e recheio de carne moída com arroz. Ela também fazia pudim de pão.

E eu tinha uma função no meio desta engrenagem toda: eu tinha que levar as comidas que minha mãe fazia. Eu deveria ter uns seis anos nesta época. E como eu era pequena, não podia carregar muita coisa. Então, eu fazia duas ou três viagens de minha casa até o bar. Era um pouco distante, para uma criança. Me lembro que eu demorava para chegar. Minha outra função neste negócio do meu pai era varrer o bar. Eu varria todo o estabelecimento. Meu pai fiscalizava tudo depois e, quando eu esquecia algum resíduo para trás, ele me fazia varrer tudo novamente. Eu nem ligava muito porque meu pagamento era muito ansiado: eu ganhava um Chokito por dia de trabalho. E talvez por isso eu tenha também me viciado em doces. Açúcar acalma as emoções, ainda que de forma muito passageira.

Então eu tinha um pai, uma mãe e um lugar numa família que tentava levar sua vida. E tudo parecia normal.

Meu pai alcoólotra tinha um bar.

Minha mãe esquizofrênica fazia salgados sozinha.

E eu aos seis anos, trabalhava.

2 comentários:

  1. Engraçado como pontos em comum nesse pequeno texto mexeram comigo.
    Sobre a deprê... a parte de conseguirmos ver apenas a parte ruim naquele momento...todas as partes boas da vida e inclusive as possíveis soluções para mudar a química do que está acontecendo no momento.
    Parece que o sofrimento é paralizantemente confortável.
    Ele não quer partir...nao quer morrer... como se fosse uma outra entidade viva.
    Nessa mesma idade ficava só algumas vezes com meu irmão de pai e mãe em comum e ele mansava eu varrer a casa. Depois de conferir, sempre mandava varrer novamente pois nunca estava bom... Eu varria pois havia apanhado na primeira vez e queria o meu premio que era o reconhecimento e o sossego de ninguem cobrando nada... além de odiar trabalhos domésticos.
    Sei que ele fazia isso não por ser um sádico, mas porque queria me preparar para ter um patrão. Para fazer um bom trabalho dentro de uma empresa.
    ...Refletindo nesse momento, penso que seja por isso meu repudio inconsciente de ter patrões, ser parte de empresas como funcionária...
    Coisas que as vãs psicologias e filosofias certamente explicam.
    A mente para mim, ainda é uma grande piada sem graça.

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